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O passado por vir –

A propósito da instalação Onde me criei

de Pedro Carreira de Jesus

Não regressarei às fugas furtivas
à procura de cerejas e de silvas
de amoras pretas repletas.
Não regressarei à ribeira
e aos seixos e peixes do rio
e aos banhos nus no rio
e à memória límpida desse rio. (…)
(Pedro Carreira de Jesus, Onde me criei, in Dança (a três tempos))

But beare me stiffely up. Remember thee?
Ay, thou poor ghost, whiles memory holds a seate
In this distracted globe. Remember thee?
Yea, from the table of my memory,
I’ll wipe away all trivial fond records,
All saws of books, all forms, all pressures past,
That youth and observation copied there…
(William Shakespeare, Hamlet)

Onde me criei evoca espaços e tempos. Espaços: o mundo rural e telúrico da infância, território sinestésico de urtigas, paus, seixos e flores amarelas, bosques, folhas e ramagens, um passado que se dá através de encadeamentos (encantamentos) sensoriais e discursivos, de uma lógica da acção e da sua posterior suspensão, como no poema Cristina: Eles atiravam-te / paus, pedras / e calhaus / porque eras / menina e / a mais pequenina. O passado é dito através de um princípio de imobilização que encontra correspondência visual na série fotográfica (instantes fixos, mumificados, de um tempo pretérito) que acompanha, nesta exposição, a poesia de Pedro Carreira de Jesus. Tempos: o passado enquanto bloco de experiências, o presente intenso e o futuro adivinhado e, todavia, incerto, mas também – e sobretudo – um passado vivo e vívido, feito presente, desajustado, simultaneamente anacrónico e actual, contemporâneo do eu poético, uma espécie de limbo. O passado é, portanto, recebido como tempo por vir nesta escrita de uma temporalidade indeterminada, intermédia, nesta poesia da disjunção e do entre.

A cenografia desta instalação de Pedro Carreira de Jesus convida o público a participar desta experiência de revisitação dos lugares da memória. Os objectos postos em situação, operação com vastas implicações semióticas – os poemas e as fotografias –, contribuem para estabelecer a junção entre o passado, o presente e o presente vivido. Três trajectos são sugeridos ao visitante. O primeiro, pelo universo sinestésico da infância, dessa infância que nos é murmurada e metaforizada por um gesto, o gesto das crianças que atiram paus a Cristina, o lugar onde as urtigas dão abraços venenosos e é forte o cheiro da cortiça (Onde me criei), a infância à qual o poeta sabe que não mais voltará. É uma realidade dispersa, composta por fragmentos, da ordem da memória involuntária, um tempo estagnado ou ausente que encontra eco na fotografia. É um tempo que deixa já adivinhar o tempo do fim do tempo enquanto momento de estancamento da palavra, mas não do sentir: Regressarei sei à terra da terra. / Na minha terra nessa terra me deitarei (ibidem).

A poesia de Pedro Carreira de Jesus emana de um corpo, de uma biografia, de um passado. É esse corpo que encontramos no segundo percurso possível, um percurso por poemas curtos e urgentes, alguns deles remetendo para o acto de escrita, poemas feitos de intensidades. Em O céu da boca, Há palavras / caladas / que trago / num trago / de rouquidão. Em Fogo, Eu ardo por dentro / e tenho fogo dentro / e estou quente / quente / queimo / queimo por dentro // porque tenho um inferno / cá dentro.

Mas é a morte, com a sua a presença fulgurante, que confere luz letal e electrizante (Um arrepio frio num florir de fim) à poesia de Pedro Carreira de Jesus, no terceiro percurso da exposição. A morte enquanto perda nos poemas À Avó e Ao Avô, admiráveis e comoventes composições poéticas sobre o luto, mas igualmente a morte enquanto paragem da escrita, experiencia ontológica impossível porque intestemunhável: Este corpo que diz / é corpo de dizer, explicar, retorquir. / É corpo de trautear / mil milhões de palavras. (…) Meu corpo de querer, de perceber que / quero teu corpo para não mais o perder / e nunca silenciar (Corpo verbal).

Se os versos de Pedro Carreira Jesus se situam já entre a palavra e a imagem, dada a importância da imagem poética e da metáfora e também das referências constantes à fixação da memória pelo dispositivo fotográfico (no poema Memória: A infância é uma / fotografia gasta e / desfocada…), a dimensão fotográfica da exposição vem reforçar a sua visualidade e o seu impulso quase cinematográfico. Os sapatos abandonados que Pedro Carreira de Jesus fotografa foram envoltórios, são sinédoques de corpos ausentes, remetendo, ao mesmo tempo, para uma particular relação entre a forma e o conteúdo, o invólucro e o que ele envolve (Walter Benjamin, A Meia, in Infância Berlinense: 1900). Entre a palavra e a imagem, forma-se uma constelação de correspondências mnemónicas, de igualdades e de desajustamentos. Os sapatos, enquanto despojos de um passado desconhecido, levam-nos às histórias dos corpos que os habitaram, são signos de ausências e de passeios cúmplices, transformam as imagens fotográficas em pequenas narrativas que encontram a sua expressão formal nos poemas de Pedro Carreira de Jesus. Tratam-se, não obstante, de correspondências enviesadas, já que é a poesia intimista e sensorial de Pedro Carreira de Jesus que vem completar o campo cego da experiência de outrem, estabelecendo a junção entre a palavra e a imagem através de um singular efeito de figuração da palavra na imagem e como imagem.

Raquel Schefer*

(*Raquel Schefer é realizadora e investigadora em Estudos Cinematográficos na Université de la Sorbonne Nouvelle – Paris 3. É autora do livro El Autorretrato en el Documental).

 

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“Dança (a três tempos)”

Por Luísa Marinho

A primeira sensação que tive quando li esta “Dança a Três Tempos” foi que estava perante um livro cujo tema principal é a ausência. Logo os dois poemas iniciais – “Um arrepio frio num florir de fim” e “O teu rosto entardeceu” – remetem para a dor da perda, que é um sentimento que vai percorrer todo o livro. Nestes dois casos, essa ausência é a ausência pela morte. Mas estes poemas deixam também adivinhar características que estão presentes em toda a obra.
A mais presente é a existência de um tom auto-confessional, em que a visão do eu poético perante o mundo – não o mundo de uma forma geral, mas o mundo interior, dos afectos, das relações com o Outro, com os outros que se cruzam de uma forma intensa com o eu – apresenta um certo desencanto. Mas esse não é um desencanto sem objectivos, fechado em sim mesmo. É esse desencanto à espera de uma catarse. E o sujeito poético, ao expô-lo, começa a realizar essa catarse. Para a levar a cabo, utiliza vários artifícios: que passam pela definição de um sentido estético próprio (absolutamente coerente), para abordar, sem muitos pudores e com coragem, temas profundos, difíceis.
Falar de catarse pode remeter automaticamente para uma certa ideia de romantismo ou neo-romantismo. Mas, penso, não é dentro desta corrente estética e conceptual que a poesia de Pedro Carreira de Jesus se enquadra. Penso que está mais próxima de uma espécie de expressionismo, que poderei chamar de pós-moderno, onde se agregam muitas outras estéticas, do barroco ao gótico. Quando falo de pós-modernismo, não quero dizer que existam colagens estéticas ou uma abordagem ao banal quotidiano, como é hoje vulgar acontecer em tantos poetas.
Os traços de pós-modernismo encontram-se num certo sentido de humor, cínico, como se pode perceber no poema “A alquimia do querer”, onde o “eu” se explica na definição do que escreve (passo a citar): “Nos poemas que / clamo e debito / mora o drama e / regista-se o grito, / mostra-se intensidade / de impossível; / e começa a / comédia / incomensurável, / burlesca e risível / da incapacidade de / elaborados poemas / serem mais que / meros poemas / sempre palavras, / imagens apenas”.
Este último verso – “imagens apenas” – reforça a ideia de um afastamento do real, do palpável, dando lugar à busca de algo maior, denotando um certo desejo de absoluto, que se procura expressar de uma forma directa e que é transversal a todos os temas do livro. Pode verificar-se isso no segundo poema, o tal sobre a morte, onde se diz, no último verso: “O teu rosto morto é amado. Muito. Ponto final”.
Mas também em “Corpo verbal”, em que o sujeito funde a sua vontade poética com a vontade do corpo, criando uma nova fisiologia. Lê-se: “Este corpo que diz / é corpo de dizer, explicar, retorquir. / É corpo de trautear / mil milhões de palavras. / Gemidas e sussurradas, / é corpo de ondear em explosões / sentidas os sentidos procurados. / É corpo de abençoar, alicerçar / as partituras possíveis e tocá-las. / É corpo de bordar significados, / corpo de borbulhar sinónimos, / corpo de espumar fecundos os fonemas, /corpo de sentir, ziguezaguear / para tangir o inexplicável. / É corpo de crescer em canção / e de brotar em poema. / É corpo visível de mostrar subtil / o corpo de contenda, / é corpo de oferenda, de inflamar / em teatro. Teatralizar. / É corpo de ombrear opúsculos,/ de cavaquear opulento o pulsar. / É corpo de convidar a surrupiar meu corpo. / Meu corpo de querer, de perceber que /quero teu corpo para não mais o perder / e nunca silenciar”.
Esta ânsia de absoluto, não está, contudo, imune ao desencanto e ao certo sentido cínico de que já falei, como se pode perceber no poema “A nossa história”: “A nossa história é rude / e discute alto, / amadurece até ficar podre, / definha e fede / e pode, / podia ser maior. / Assim o amor”.
Esta espécie de agnosticismo sentimental abre uma série de possibilidades ao sujeito poético que parece estar sempre à espera do inesperado, de surpresas que compensem os dias sempre iguais. Diz-se em “Viagem”: “Se volátil é a certeza / sumptuosa é a surpresa / na viagem por nós / empreendida. / A vida”.
A força de vontade do “eu” parece, então, ser uma força maior, indomável, que contagia as relações e o Outro. O sujeito projecta-se nesse Outro, projecta a sua própria vontade, a sua força e o seu medo (que no seu caso é também uma espécie de coragem), e apela a sua força vital, apelando ao Outro. O poema “Cicatriz” é paradigmático desse estado de consciência: “Troca os papéis, / toca a minha mão / e trepa as pontes, / come da minha mão, / das searas e dos montes, / ensina a minha mão / a cicatrizar a carência, / eleva a minha mão e / fustiga a ausência, / acende o incenso / incessante que urge / arder contundente, / espreita na minha mão / a promessa da tua mão / e segue em frente”. Ou mesmo no poema “O sal e a ampulheta”: “Os teus olhos, / quais poços rasos / que rasam / barreiras são / duas fronteiras / que arrasam / cheias as / duas barragens / que enchem e / derrubam / margens e / inundam / cidades inteiras. / Os teus olhos / mergulham e / transbordam, / transformam / o sal da derrota / em ampulhetas / que escoam o / tempo eterno / fora de prazo (…)”.
Mas para se perceber esta “ânsia de infinito, de plenitude” é necessário analisar o que lhe está subjacente. E o que está subjacente é uma certa amargura, uma revolta triste, antiga, cheia de nostalgia mas também de respeito, que é a relação do sujeito poético com a sua infância, a sua história. Ao pensá-la, tenta encontrar um sentido. Pode ler-se em “Consanguinidade”: “Sim, foram vocês / que me trouxeram / e me fizeram ser / e faça o que fizer, / traga o que trouxer, / não consigo ser / o que vocês esperam”. Ou mesmo em “O silêncio que corrói: “Pai. Mãe. / Domarei as palavras / certas / e dar-vos-ei / certas palavras. / Já domadas”. Ou então em “O medo antigo”: “O que muito me dói / é engolir no tempo / que tropeça e passa / o intuir que ninguém / emerge e me abraça / e é escrutinar no tempo / que se reergue e passa / a desgraça / da fome de afecto / que silenciada grassa”. É a necessidade de uma protecção, perdida algures durante o processo de crescimento, e já vestida com novos desejos – adultos – que aqui emerge, por exemplo neste verso: “Toma conta de mim sem que eu tome conta”.
Interessante verificar que este apelo, se bem que visceral, não é um apelo desesperado, pois o eu poético tem uma capacidade de se auto regenerar, percebendo que é apenas a força interior o motor das mudanças. Essa vontade indómita de que já falei está bastante presente no poema “Visita escolar às ruínas”, do qual passo a ler um excerto: “Quando fujo de tudo e não me despeço, / quando me sinto sujo e me refugio mudo / no rio de risos que sei que existe mas / nunca ao vivo vi e intimamente desconheço. / Quando estaciono numa frase triste, / transbordo tormentas e não o transpareço, (…) E quando imerso em temor e despeito / reúno os meus esforços para colher os destroços, / ruínas de alma quebrada, penso e repenso afoito / neste feito para, de mim, novamente, continuar. / E se já pacificado, dos cacos a colar, ressuscito, / recolho-me das minhas ruínas demarcadas e / reconstruo-me ciclicamente em eterno retorno”. E continua mais abaixo, e sublinho aqui o sentido irónico: “Até ao temporal que antecipe a Primavera emocional, / ostento as ruínas para visitas escolares de meninos / e meninas de molares cariados e cadernos coloridos. / A destruição pode ser apreendida como lição, anotem! / Morrendo um pedaço de nós as ruínas resultam em vida, / algo precisa desabar para vislumbrar salubre a saída!”.
É inevitável falar da musicalidade da poesia de Pedro Carreira de Jesus, conseguida através de rimas, de jogos de palavras, de versos bem lapidados. Se por vezes essa musicalidade consegue produzir um efeito estético encantatório, outras vezes faz com que as palavras se atropelem. É mais uma vez o caos a emergir quando apenas se queria domá-lo com a estética. Mas a poesia de Pedro Carreira de Jesus é mesmo assim: transborda para dentro dela mesma.

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